O professor, Victor Hugo Lecoq de Lacerda Forjaz, vulcanólogo associado do Departamento de Geociências da Universidade dos Açores escreveu um artigo bastante esclarecedor sobre os riscos oferecidos pela Ilha "El Hierro" e o vulcão "Cumbre de Vieja" na Ilha de La Palma. Victor é licenciado em Ciências Geológicas, pela Faculdade de Ciências de Lisboa, e doutorado em Vulcanologia de Engenharia, pela Universidade dos Açores, com especialização em Riscos Geológicos e em Ciências Geotérmicas.
Em seu artigo, o professor destaca que apesar das evidências propagadas há vários anos que uma tragédia envolvendo as Canárias possa acontecer, não existe registro histórico de nenhum continente que tenha sido atingido por um mega-tsunami. "No caso de El Hierro os profetas da desgraça brotaram outra "previsão",ou seja, papaguearam os medos do cientista inglês Simon Day, vaticinaram que os milhares de tremores telúricos, uns vulcânicos outros tectónicos, teriam abalado a ilha,"enfraquecendo-a" de tal modo que uma grande fatia de El Hierro iria deslizar para o oceano, abruptamente, assim gerando uma gigantesca vaga (um tsunami).O vagalhão iria arrasar imensas extensões costeiras, na África, no Brasil, nos EUA, na Europa....Enfim ,um cataclismo inesquecível !Os promotores repetiam o já anunciado para a ilha de La Palma por Simon Day". E prossegue: "A realidade é nenhum desses megacolapsos com megatsunamis ocorreram em tempos históricos. Não se duvida da respectiva existência mas as causas e as consequências variam de região para região. Essa é a verdade -- os megatsunamis transoceânicos, ligados a colapsos de territórios vulcânicos, não se encontram bem sustentados, quer documentalmente quer sedimentológicamente. Ou seja, num determinado continente não se conhecem, sem dúvidas, depósitos transportados por megatsunamis gerados em geografia oposta".
Leia o artigo completo:
1 - O vulcão submarino da Restinga, nos mares da ilha de El Hierro, tem sido noticia em todo o mundo (menos em terras açorianas,julgo eu ...)! Aliás dos Açores deslocou-se apenas a Vulcanóloga Profª Doutora Zilda França. A permanência da nossa Colega nas Canárias foi extremamente representativa e útil. As autoridades locais, cientificas e políticas, acolheram-na com muito respeito e amizade. Os colegas, de diversas origens, foram cooperantes e incansáveis . Por esse motivo temos mantido relatos diários internéticos junto de milhares (sim--milhares) de peritos e de curiosos assim constituindo um forum entusiasmante.
2 - Entretando, com o passar das semanas manteve-se o " comportamento"inusual do novo vulcão do tipo serretiano (ora se afastava ora se aproximava, ora se desenvolvia sem tremor vulcânico, ora emitia largos volumes de produtos vulcânicos, finíssimos, em silêncio sísmico, ora emitia ténues vapores ora se assinalava por borbulhantes cachões de espuma e de vapores pestilentos. Registaram-se milhares de micro a macroeventos sísmicos. Entretanto surgiram os profetas da desgraça. É sempre assim----no Faial,em Maio de 1958,durante Capelinhos, também foi assim : segundo um jornalista lisboeta ,a ilha teria a forma de cálice pelo que as sismotremuras diárias iriam fracturar o pé do cálice e depois....pum , ficávamos todos afogados( e eu com 17 anos !).Muitos fugiram para o Pico e S. Jorge. Regressaram no fim do mês, com a chegada de Tazieff,tido como um "deus" da vulcanologia (que ajudou o Governador Freitas Pimentel e o Engº Frederico Machado a consolidarem a calma e a sensatez) . No caso de El Hierro os profetas da desgraça brotaram outra "previsão",ou seja, papaguearam os medos do cientista inglês Simon Day, vaticinaram que os milhares de tremores telúricos, uns vulcânicos outros tectónicos, teriam abalado a ilha,"enfraquecendo-a" de tal modo que uma grande fatia de El Hierro iria deslizar para o oceano, abruptamente, assim gerando uma gigantesca vaga (um tsunami).O vagalhão iria arrasar imensas extensões costeiras, na África, no Brasil, nos EUA, na Europa....Enfim ,um cataclismo inesquecível !Os promotores repetiam o já anunciado para a ilha de La Palma por Simon Day . Adios tapas e tasquitas !
3 - Mega-abatimentos ou colapsos em estruturas vulcânicas são desde há muito conhecidos : na vertente sul da montanha do Pico, no segmento sul do vulcão das Furnas (em estudo), em diversas ilhas das Canárias ( sendo os de La Palma aparatosamente divulgados por Simom Day;Tenerife...) Réunion, Cabo Verde, Hawaii, Japão, etc. Pouco se sabe sobre o mecanismo desses colapsos, ou seja, se foram bruscos, se foram lentos e do tipo "creep", se foram excitados por terramotos, se foram accionados por excesso de água, se existiram condicionantes topográficas, se resultaram de incoesões gravíticas, etc. A realidade é nenhum desses megacolapsos com megatsunamis ocorreram em tempos históricos. Não se duvida da respectiva existência mas as causas e as consequências variam de região para região. Essa é a verdade -- os megatsunamis transoceânicos, ligados a colapsos de territórios vulcânicos, não se encontram bem sustentados, quer documentalmente quer sedimentológicamente. Ou seja, num determinado continente não se conhecem, sem dúvidas, depósitos transportados por megatsunamis gerados em geografia oposta. Assim os terríveis deslizamentos das Canárias, com repercussões nos Açores, devem ser tomados como suposições para datas de impossível adivinhanço.
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